08.09.2008

A tocha na China

Publicado 14.05.2008
Paulo Castelo Branco-9

Na história das Olimpíadas modernas nunca houve manifestações de protestos tão expressivas como agora. Quando Hitler quis mostrar seu poderio bélico e político, organizou os Jogos de Berlim para que o mundo se curvasse perante os atletas da raça pura imaginada pelo ditador.

A decepção não demorou. A vitória de Jessé Owens empanou a festa. Naquela época, o III Reich preparou seus atletas para serem reconhecidos como membros de uma raça sadia. Os nazistas não perseguiam somente os judeus, mas também ciganos, eslavos, doentes e políticos que se opunham ao governo.

Jessé Owens, com sua pele negra, era o oposto do que Hitler desejava ver no pódio. No final, lá estava ele: O Príncipe de Ébano recebendo a medalha.

O regime nazista foi derrotado nas Olimpíadas e, alguns anos depois, na guerra. Dos jogos restou a imagem de Owens estampada nos jornais que permanecem até hoje. Ninguém mais se lembra dos grandes feitos de outros atletas que disputaram a competição.

Nesses dias que antecedem a Olimpíada de Pequim, a mídia internacional está mobilizada não para mostrar os preparativos dos atletas, mas a atabalhoada passagem da tocha olímpica pelas cidades escolhidas para, simbolicamente, iluminar os caminhos que a levarão a Pequim.

No trajeto, o constrangimento dos atletas que carregam a gelada chama é evidente, e os seguranças, escolhidos dentre membros Polícia Armada do Povo da China e contratados pelo Comitê Olímpico Internacional para proteger a chama, estão queimando a imagem do governo chinês.

Os seguranças, vestidos em trajes ninja preto e branco, agridem manifestantes por onde passam e acirram ânimos aumentando os protestos contra a violência no Tibet, apesar dos apelos do Dalai Lama que diz não desejar a independência. Dezenas de monges foram mortos, mas outros continuam na luta pela soberania do seu povo. 

O Japão avisou que não aceitará a presença de seguranças chineses na passagem da tocha por seu país. Shinya Izumi, chefe da Comissão Nacional de Segurança Pública afirmou que: - "Não devemos violar o princípio de que a polícia japonesa vai manter firmemente a segurança. Não sabemos em que situação estão as pessoas que escoltam o revezamento. Se estão aqui para considerar a segurança, este é nosso papel".
A tocha chegará no dia 26 de abril a Nagano, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1998, depois de passar por Buenos Aires, Mumbai, Camberra e Omã; isso se os protestos diminuírem. Ao contrário, restará aos organizadores das Olimpíadas suspender o revezamento, levar a chama para Pequim e aguardar o desenrolar dos acontecimentos que poderão descambar para o boicote liderado pela França e Alemanha, dois dos países que mais sofreram com os desatinos de Hitler.
A falta de liberdade do povo chinês é a principal motivação das manifestações que ocorrem por onde passa a chama. Os internautas inserem imagens de submissão da população do interior, confrontadas por cenas expostas pelo poder central que mostram desenvolvimento em grandes cidades cercadas de policiais que protegem o poder que se esvai, como ocorreu em todas grandes e pequenas ditaduras.
A luta política na internet já ofereceu dois exemplos de argúcia e inteligência: um deles é a transformação dos elos olímpicos em algemas; o outro, é o trabalho gráfico que mostra como teria sido idealizado o símbolo olímpico de Pequim, que é representado por um atleta com o peito perfurado. Na internet, livre e independente, a imagem é de um homem à frente de pelotão, fuzilado, atingido no peito, tombando de braços e pernas abertos.
Atochado pela cunha da democracia, o governo chinês deve recorrer à História e abrir caminhos para seu povo no pódio das Olimpíadas.

Paulo Castelo Branco.  

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