Na história das Olimpíadas modernas nunca houve manifestações de protestos tão expressivas como agora. Quando Hitler quis mostrar seu poderio bélico e político, organizou os Jogos de Berlim para que o mundo se curvasse perante os atletas da raça pura imaginada pelo ditador.
Na história das Olimpíadas modernas nunca houve manifestações de protestos tão expressivas como agora. Quando Hitler quis mostrar seu poderio bélico e político, organizou os Jogos de Berlim para que o mundo se curvasse perante os atletas da raça pura imaginada pelo ditador.
A decepção não demorou. A vitória de Jessé Owens empanou a festa. Naquela época, o III Reich preparou seus atletas para serem reconhecidos como membros de uma raça sadia. Os nazistas não perseguiam somente os judeus, mas também ciganos, eslavos, doentes e políticos que se opunham ao governo.
Jessé Owens, com sua pele negra, era o oposto do que Hitler desejava ver no pódio. No final, lá estava ele: O Príncipe de Ébano recebendo a medalha.
O regime nazista foi derrotado nas Olimpíadas e, alguns anos depois, na guerra. Dos jogos restou a imagem de Owens estampada nos jornais que permanecem até hoje. Ninguém mais se lembra dos grandes feitos de outros atletas que disputaram a competição.
Nesses dias que antecedem a Olimpíada de Pequim, a mídia internacional está mobilizada não para mostrar os preparativos dos atletas, mas a atabalhoada passagem da tocha olímpica pelas cidades escolhidas para, simbolicamente, iluminar os caminhos que a levarão a Pequim.
No trajeto, o constrangimento dos atletas que carregam a gelada chama é evidente, e os seguranças, escolhidos dentre membros Polícia Armada do Povo da China e contratados pelo Comitê Olímpico Internacional para proteger a chama, estão queimando a imagem do governo chinês.
Os seguranças, vestidos em trajes ninja preto e branco, agridem manifestantes por onde passam e acirram ânimos aumentando os protestos contra a violência no Tibet, apesar dos apelos do Dalai Lama que diz não desejar a independência. Dezenas de monges foram mortos, mas outros continuam na luta pela soberania do seu povo.
O Japão avisou que não aceitará a presença de seguranças chineses na passagem da tocha por seu país. Shinya Izumi, chefe da Comissão Nacional de Segurança Pública afirmou que: - "Não devemos violar o princípio de que a polícia japonesa vai manter firmemente a segurança. Não sabemos em que situação estão as pessoas que escoltam o revezamento. Se estão aqui para considerar a segurança, este é nosso papel".
A tocha chegará no dia 26 de abril a Nagano, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1998, depois de passar por Buenos Aires, Mumbai, Camberra e Omã; isso se os protestos diminuírem. Ao contrário, restará aos organizadores das Olimpíadas suspender o revezamento, levar a chama para Pequim e aguardar o desenrolar dos acontecimentos que poderão descambar para o boicote liderado pela França e Alemanha, dois dos países que mais sofreram com os desatinos de Hitler.
A falta de liberdade do povo chinês é a principal motivação das manifestações que ocorrem por onde passa a chama. Os internautas inserem imagens de submissão da população do interior, confrontadas por cenas expostas pelo poder central que mostram desenvolvimento em grandes cidades cercadas de policiais que protegem o poder que se esvai, como ocorreu em todas grandes e pequenas ditaduras.
A luta política na internet já ofereceu dois exemplos de argúcia e inteligência: um deles é a transformação dos elos olímpicos em algemas; o outro, é o trabalho gráfico que mostra como teria sido idealizado o símbolo olímpico de Pequim, que é representado por um atleta com o peito perfurado. Na internet, livre e independente, a imagem é de um homem à frente de pelotão, fuzilado, atingido no peito, tombando de braços e pernas abertos.
Atochado pela cunha da democracia, o governo chinês deve recorrer à História e abrir caminhos para seu povo no pódio das Olimpíadas.
Paulo Castelo Branco.