20.11.2008

Cotas

Publicado 03.09.2008
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O sobrinho trabalhava há mais de cinco anos no gabinete. Era graduado e pós-graduado. Falava cinco idiomas. Pela manhã, antes do expediente, exercitava-se com personal trainer. Não bebia, nem fumava. Na chefia do gabinete, exercia suas funções com cordialidade e presteza. No fundo, seria um ótimo genro. Cheio de qualidades e quase nenhum defeito. O único, aparente, era não ter passado no concurso público.

A norma expedida não deixava dúvidas. A partir do dia 15, nenhum parente de autoridade poderia ser contratado para prestação de serviços. – Está na Constituição. O que é que você espera que eu faça? Não interessa se é filho da sua irmã. Não posso fazer nada para mantê-lo no cargo. No dia 16 ele já está fora. Disse o parlamentar à sua esposa. Ela acabou cedendo e prometeu que não iria mais tocar no assunto.

Chegando ao gabinete o assunto era um só: O que nós iremos fazer? Ele, calmo, disse: – As campanhas eleitorais estão ocorrendo por todo o país. Posso colocar cada um de vocês para ajudar alguns correligionários. Depois, quando forem eleitos os candidatos, vocês serão novamente nomeados para alguma função e, desta vez, sem nenhum vínculo comigo. Tenho certeza de que tudo dará certo e ninguém ficará desempregado. Agora vamos ao trabalho, que o dia 15 ainda não chegou.

Acomodado em sua mesa de trabalho, determinou à secretária, sua filha, que mandasse entrar a primeira pessoa que aguardava audiência. Era um dos seus irmãos instalado no gabinete de um colega. O parente estava afobado e foi logo reclamando: – Afinal, você manda ou não neste negócio. Eu larguei o meu emprego de vinte anos acreditando que seria efetivado no primeiro trem que passasse. Agora, vem esta história de proibição de nepotismo. Eu sou competente, trabalhador, de confiança e exijo os meus direitos. Tenho família para cuidar e não posso ficar desempregado. Se vira! Ele, calmo, respondeu: – Olha, meu irmão, minha vida é um livro aberto. Até aqui eu praticamente garanti o sustento de toda a família. É só você contar os que estão sob a minha proteção. Primeiro, nosso pai que foi nomeado fiscal de rendas no meu primeiro mandato e se aposentou em cinco anos. Mamãe, nomeada merendeira do grupo escolar, nunca trabalhou e, também, se aposentou. Juca, nosso irmão mais velho, até hoje vive à custa do estado. Nunca fez nada para merecer o salário, mas está lá contando boi no pasto. Zezinho e Rose não podem reclamar do emprego na prefeitura de Xicó. Restou você que decidiu me acompanhar quando a constituição já havia sido promulgada. Os outros se arranjaram e não terão problemas. É só não trabalhar comigo. O seu caso é diferente e recomendo que procure outro emprego, pois, deste, estará demitido no dia 15. E até logo. Preciso cumprir minha agenda.

O próximo era Firmino, seu tio por parte de mãe e que trabalhava como motorista de um colega. – Meu filho, sei que as coisas estão complicadas para o seu lado e vim colocar o meu cargo à disposição. Ficou emocionado com o desprendimento do velho tio. Levantou-se para abraçar o parente e agradecer o gesto. O tio, depois de receber o abraço, enfiou em seu bolso um envelope e saiu. Pensou se tratar de uma carta de agradecimento apesar do peso. Abriu o envelope. Eram os carnês de prestações a vencer após o dia 15.

Durante o dia inteiro recebeu parentes reclamando da determinação de proibição de nepotismo. Ao anoitecer, exausto, dirigiu a reunião com os companheiros que pretendiam reagir às regras impostas.

Juliano, ex- comunista, fez uma longa exposição sobre os novos rumos do governo chinês e propôs a elaboração de lei, fixando regime de cotas para que cada homem público no exercício de mandato ou função no executivo, pudesse nomear parentes. Asdrúbal, guerrilheiro de primeira hora, no exercício de um mandato que quase perdeu por desvio de conduta, aprovou a idéia e a complementou indicando que deveriam fixar, em emenda constitucional, o seguinte critério: poderiam ser nomeados para funções de assessoria; o pai ou a mãe, por serem de absoluta confiança; dois filhos, confiáveis; um genro ou nora para cargos aleatórios. Iniciou-se tremenda confusão entre os companheiros com cada um fazendo uma proposta diferente.

O líder, aos berros, encerrou a questão: – Não temos outra solução. Esse negócio de cotas é ridículo. O tempo do nepotismo passou. Vamos em frente, senão seremos derrotados nas eleições.

 

Paulo Castelo Branco.

       

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Somos atores na peça criada por Deus, chamada vida. E todo mundo, pelo menos uma vez, erra em cena. Então é só saber levantar, pelo menos rindo; e o público nem perceberá. Afinal, o riso tem o dom da conquista, e o sorriso tem o dom de cativar sentimentos mais nobres, ou pelo menos exaltá-los, esfuziá-los aos próximos, carentes, como todos, de amor."

— Dr.Arnaldo Xavier Jr.

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