20.11.2008

Depoimento de um encapuzado

Publicado 05.08.2008
paulo castelo branco-18
Meu nome é Adonias. Ninguém me conhece assim. Todos me chamam de “Dondinho”, que era a forma carinhosa usada por minha mãe e meus irmãos. Hoje, nos jornais, está descrito como alcunha. Sobre o meu pai nada sei. Minha mãe não gostava de se lembrar dele. Quando o conheci ele estava numa poça de sangue na entrada da Comunidade. – O presunto é o seu pai, disse-me um “soldado do tráfico”. Eu não havia completado cinco anos de idade.

Saí da favela quando minha filha nasceu. Ela é uma linda menina e não quero que me veja da mesma forma que vi meu pai. Juntei uma grana e comprei uma casa nesta praia. O Nordeste é maravilhoso! Vivo tranqüilo com minha companheira, que é professora. Para que as coisas ficassem “limpas”, construímos a creche que atende as crianças da região, inclusive as carentes. Essas são por minha conta. Recebem tudo; uniforme, vacinas, alimentação e ensino melhor do que na sede do município.

Na Comunidade possuo algumas casas interligadas por passagens secretas. Quando os inimigos chegam posso me deslocar com rapidez e tomar posição privilegiada para reagir ao ataque. Eles sempre surgem para tomar as minhas posições. Se minha gente não estiver alerta, pode acontecer conosco o de sempre: mudança de comando com a morte do chefe. A substituição é automática. Quem sobrevive acaba passando para o lado do vencedor. Não existe ética. É muito parecido com quase tudo que acontece por aí.

Quando chega a polícia, é diferente. Os homens querem aparecer na televisão e mandam de bala em tudo o que vêem pela frente. É um desperdício danado de munição. Se eles pagassem as balas com o próprio dinheiro, acho que morreriam menos inocentes. Agora, com as eleições, vai ser difícil conciliar tantos interesses e ainda manter os serviços de entrega de drogas no ritmo necessário. É prejuízo grande.

Nossos valorosos homens da lei vivem, também, nas comunidades. Nelas, precisam se acomodar com as lideranças, pois podem ser abatidos que nem coelho. Não fica um só. De vez em quando um governante resolve construir área residencial só para policiais. Eles aceitam e se desfazem dos imóveis. Não querem ser vistos chegando e saindo do bairro. Estão cansados de avisar que o ideal é financiamento com juros baixos para que escolham suas casas onde acharem melhor. Não adianta. Então eles cedem, recebem as casas e vão para outro lugar. Morar vizinho dos fora-da-lei é complicado. Não pode dar certo.

Toda terça-feira saio de casa, pego um ônibus executivo e volto para a comunidade. Aqui na praia, o pessoal acha que compro e vendo carros. Não é mau negócio e sempre oriento aos que me pedem opinião. Conheço muito bem o assunto. Fui aprendiz de mecânico antes de me dedicar às atividades ilícitas.

Na sexta-feira à noitinha, pego o ônibus e volto para casa. Seguindo o ônibus vão dois carros dando segurança, até sairmos da área perigosa. Depois deixo nas mãos de Deus. Não posso permitir que desconfiem das minhas atividades.

Na minha cidade, tenho medo de ser confundido com um homem de bem numa dessas barreiras policiais. Evito circular nas madrugadas e nunca bebo nem uso drogas. Procuro estar dentro das leis nessas coisas menores. Você já pensou, eu, um cara da pesada, ser obrigado a soprar bafômetro? Não dou bobeira. Uma vez eu soube que um dos maiores bandidos do mundo foi pego pela polícia por sonegar impostos. Nessa eu não caio.

Tem outra questão que quero tratar, e espero que você, ao escrever sua matéria, consiga ser fiel ao meu pensamento. Existe uma falsa discussão sobre essas leis que surgem depois de tragédias. O que os governantes conseguem com suas decisões é tirar o pouco de felicidade que ainda resta na maioria dos cidadãos responsáveis. Criminosos não estão preocupados com leis. É por isso que são chamados de fora-da-lei. Não interessa a um sujeito, que já “puxou” cana em penitenciária, se pode ou não dirigir em alta velocidade, embriagado ou drogado. Bandido, durante o seu expediente, não compra carro, não aluga nada nem está pensando no futuro. Ele só quer botar a mão na grana e sobreviver. Bandido só respeita polícia limpa e justiça rápida. O resto é papo furado. Portanto, preste atenção: Cuidado ao dirigir, não ultrapasse o limite de crédito, eduque seus filhos, pague o imposto de renda em dia, não jogue objetos pela janela, e não cobice a mulher do próximo. As leis podem jogá-lo atrás das grades.

 
Paulo Castelo Branco

Comentários

1 comentários nesta página. Adicione seu comentário abaixo.

Arnaldo Jr.
06.08.2008 03:06 [ 1 ]

Muito; mas muito bom mesmo seu artigo Doutor.

Parabéns, e sinto-me honrado em constarmos juntos desta coluna.

Abraços!

Arnaldo Xavier Junior

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Somos atores na peça criada por Deus, chamada vida. E todo mundo, pelo menos uma vez, erra em cena. Então é só saber levantar, pelo menos rindo; e o público nem perceberá. Afinal, o riso tem o dom da conquista, e o sorriso tem o dom de cativar sentimentos mais nobres, ou pelo menos exaltá-los, esfuziá-los aos próximos, carentes, como todos, de amor."

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