Só num país desmoralizado pela própria natureza de seus habitantes é que uma autoridade pública tem a coragem de intimar um ex-presidente da Suprema Corte a prestar depoimento sem antes consultar o site do tribunal para verificar se o ministro ainda estava no exercício da função.
O episódio que atingiu o ministro Carlos Mário Veloso é o exemplo mais evidente do descaso com o futuro do país. Veloso foi magistrado por quase 50 anos e, hoje, aguarda a passagem dos três anos de quarentena para voltar a advogar nos tribunais em que, com correção e espírito público, aplicou a lei em milhares de casos que julgou.
O ministro Humberto Gomes de Barros, na última sessão que presidiu no Superior Tribunal de Justiça afirmou, bem humorado, que entrara no tribunal com reputação ilibada e, agora, ao sair, está com a reputação prejudicada por não ter o direito de advogar onde aplicava Justiça. É assim que estamos vivendo. Os homens de bem sofrem todo tipo de restrições para continuar as suas vidas sem a proteção dos cargos que exerceram. Parece que não queremos que os sábios permaneçam em nosso meio. Rui afirmava que chegaria um dia em que teríamos vergonha de sermos honestos. Parece que o tempo chegou.
Com a proximidade das eleições, a cada dia, um novo evento nos mostra que o país abençoado por Deus, caiu nas mãos do demônio. Os candidatos da marginalia, protegidos pela inocente presunção de inocência, desfilam suas folhas corridas como se fossem currículos. O sucesso nos ataques aos abarrotados cofres públicos deixam envergonhados os mais experientes ladrões de bancos, traficantes de drogas ou seqüestradores. Arrependidos por terem escolhido a perigosa profissão de bandidos, choram suas magoas nas prisões de segurança máxima que os tiraram da vida difícil de procurados pela polícia. Na solidão, tomam conhecimento de que seus concorrentes, com uma simples indicação partidária, podem ficar incólumes por toda a vida.
É nesse terreno fértil da corrupção e da impunidade que possibilidades de renovação saem pelo mesmo esgoto das mazelas da nação. A juventude é arrastada para as drogas e para desilusão. Não são raros os casos de jovens de todas as classes sociais envolvidos em atividades ilícitas e praticando crimes brutais.
O silêncio do povo é a prova de que a anomia nos invadiu e não há tratamento psicológico que possa modificar nosso destino. O país se voltou para a gozação de seus próprios atos. O CQC é a maior novidade. Não é difícil a concentração de milhões de pessoas defendendo direitos individuais em passeatas milionárias. Movimentos que exigem correção na vida pública, expulsão de dirigentes corruptos e o contenção da violência urbana não conseguem apoio de duas dezenas de pessoas, intimidadas pelas forças policiais.
Aqui, os antigos líderes das farsas sindicais e dos movimentos estudantis e sociais estão empoleirados nos paus sujos dos pardieiros em que se tornaram suas agremiações, e se calam perante os descalabros de que participam, como tantos outros, que, descobertos pela polícia e levados à Justiça, contratam defensores não para provar inocência, mas para conseguir a prescrição dos seus delitos.
Quando uma luz brilha no horizonte, como é a tentativa do presidente do Tribunal Superior Eleitoral em democratizar as eleições, logo se levantam as vozes daqueles que não querem a liberdade na internet, a exclusão dos nunca julgados e a modificação das leis ultrapassadas ou marotas.
A incompetência dos governantes, a apatia do povo, a cara-de-pau da bandidagem e a desesperança só tem servido para animar os shows de música popular que arrefecem os espíritos e prometem que, apesar dos sempre inocentados acusados, amanhã há de ser um novo dia, ou, como poderia nos ensinar a ex-seqüestrada das Farcs, Ingrid Betancourt, “Allons enfants de la Patrie/Le jour de gloire est arrivé...
Paulo Castelo Branco
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