20.11.2008

Fábrica de frustações

Publicado 26.05.2008
Paulo Castelo Branco-11

Desde que saiu da universidade, Rômulo não pensa em outra coisa que não seja a aprovação em concurso público. Ser médico era o sonho. Menino, seguia os passos do avô em direção ao pequeno hospital, mantido com sacrifício com a ajuda de alguns fazendeiros da região. Ficava sentado num canto, observando os exames que o avô fazia nos pacientes: - Diga trinta e três. Trinta e três. Trinta e três. Com o estetoscópio sobre os pulmões o médico seguia na consulta. No final dos atendimentos, o avô colocava o aparelho sobre o peito e o mandava ouvir o pulsar do coração. Na primeira vez, sentiu um susto danado com o chump, chump, chump, do sangue sendo impulsionado a garantir a existência.

Participante da vida do hospital assistiu o nascimento de bebês e o fim da vida de crianças, jovens, adultos e idosos. Ficava sentido ao perceber a morte e se prometia continuar o trabalho extenuante do avô.

Quase no final do curso, o avô partiu quando o acompanhava como interno, numa cirurgia. O velho amigo caiu fulminado por um infarto. Neste dia desistiu da carreira e iniciou estudos dirigidos aos concursos que invadiam os sonhos dos jovens.

Pegou o canudo e seguiu para a capital. Numa república de concurseiros, encontrou companheiros dispostos a passar no primeiro concurso anunciado. No cursinho preparatório, soube do edital para admissão de funcionários no Instituto de Identificação. Duas vagas para assistente de fotógrafo; salário R$680, 00, exigência de curso médio. Pagou a taxa de inscrição de R$ 58,00 pela internet, e aguardou o dia da prova. Soube pelos jornais que havia 30 mil inscritos. Não se incomodou, pois só desejava saber como era um concurso de verdade. Na sala, com 300 candidatos, sentiu, pela primeira vez, o suor escorrer pelas mãos, pelos braços e no assento da cadeira. Ficar nervoso para quê, se não estou interessado nesse cargo, pensou.

A prova era de arrasar. Na parte da língua portuguesa deixou 65% sem resposta. Ficou com medo de errar nas alternativas, e eliminar uma resposta certa. História do Brasil deixou quase tudo em branco. Dedicou-se ao Direito Administrativo que sabia ter maior peso. Sentiu-se seguro e respondeu sem medo.

Quando saiu o resultado, não se surpreendeu ao ver o seu nome entre os aprovados com média 60. No cômputo geral, foi classificado em 3.467. Nenhuma chance de ser chamado nos próximos dois anos, tempo de validade do concurso.

Durante três anos se preparou e concorreu em dezenas de concursos. Médico, enfermeiro, agente de polícia, policial militar, ascensorista, pára-quedista de socorro médico em áreas de risco, mata-mosquito, caixa de banco, controlador de tráfego e técnico de abertura de válvulas em barragens. Nas funções técnicas, conseguiu aprovação com boa classificação. Em algumas vezes foi chamado, mas o que desejava mesmo era fazer o concurso do banco estatal que estava prestes a ser realizado. Quando saiu o edital, ficou eufórico, 2.000 vagas. Estava preparado para passar em ótima classificação. Até os professores do cursinho garantiam que ele era, sem dúvidas, o mais competitivo candidato.

Nos jornais, a terrível notícia: “500 mil candidatos. Em todo país, milhares de candidatos disputarão 2.000 vagas no próximo domingo”. – Será possível que essas pessoas imaginam que serão classificadas? Questionou na última aula de revisão. – Isso não interessa. Nessa hora é cada um por si. Responderam em uníssono os alunos.

Na fila de acesso às salas de provas avistou Manu, colega do curso de medicina. Bonita, tranqüila, calças jeans encobertas pelo jaleco branco, parecia estar no melhor dos mundos. Aproximou-se e recebeu um sorriso amigável. Trocaram beijos nas faces e iniciaram conversa. – Mas, logo você, Rômulo, nosso mais promissor médico na fila para ser escriturário de banco? – É, a vida é assim mesmo. A desilusão invade a vida da gente e não tem retorno. – Como não? Nesses anos, trabalho intensamente, mas não desisti de sonhar com o futuro. Não tenho frustrações; só caminhos a percorrer, como disse o poeta. Você não vê que essa loucura da busca incessante da garantia de emprego está acabando com a esperança, com a criatividade e principalmente com a alegria de exercer uma profissão com a alma? Rômulo colocou a ficha de inscrição no bolso, sentou-se ao lado de Manu, e reiniciou a caminhada rumo ao desconhecido. Sem medo.

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