Evaristo era menino no Irajá, subúrbio da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro – o Rio do Gabeira – e vivia solto pelos terrenos baldios, chácaras repletas de árvores frutíferas e riachos ainda não poluídos. Tempos bons. Era época em que dinheiro não fazia falta, e Evaristo nem sabia se seu pai possuía ou não recursos. Certo era que a infância passava pela escola, a carona no bonde, a passagem pelo cemitério para colher saborosas goiabas sem risco de ser atingido por balas de sal do Seu Segismundo, dono do mais desejado pomar do bairro.
Invadir a chácara, cercada por arame farpado bem esticado e um portão com lanças ameaçadoras, era tarefa quase impossível. No entanto, todos os meninos da região queriam ter a glória de retirar uma fruta do pé. O que ficava mais próximo da cerca era a plantação de pés de cana caiena com seus gomos coloridos e reluzentes. Foi ali que Evaristo tomou conhecimento da palavra imperceptível.
Com um canivete afiado, o menino esgueirou-se por baixo do arame, depois de cavar uma pequena passagem. Da varanda da casa, Seu Sigismundo não podia imaginar que algum garoto tivesse a ousadia de enganá-lo com novas tentativas, pois, naquela semana, já havia acertado as costas de dois moleques com tiro certeiro; outros três ficaram enganchados nos arames e foram castigados com cascudos e puxões de orelha.
Evaristo, com cuidado para não balançar as folhas das canas, cortou a base do pé e o deitou lentamente, deixando um pedaço para fora da cerca. Voltou sorrateiramente e puxou troféu. Correu para o cemitério e chamou os amigos para dividir os gomos suculentos.
Na terceira fatia sentiu algo na garganta. Tossiu, bebeu água e nada do troço descer pela goela abaixo. O incômodo fiapo de cana se instalara de forma irreversível em algum lugar, a ponto de deixá-lo sem ar. Os amigos correram para avisar sua mãe que lhe deu pedaços de miolo de pão, na tentativa de fazer o bagaço desimpedir a garganta do menino. Não teve jeito. Na farmácia, o atendente, com lupa e lanterna, procurou o fiapo sem sucesso. – É algo imperceptível. Talvez seja melhor levá-lo para a emergência do Hospital Getúlio Vargas. Evaristo entrou em pânico e, chorando, pediu à mãe para salvá-lo: – Não quero morrer. Por favor, mãe, me salva desse troço imperceptível!
No hospital, depois de longa e sofrida viagem de ônibus, roxo e assustado, Evaristo foi examinado por um otorrinolaringologista; quando viu a especialização do médico ficou ainda mais assustado. Não sabia o que era imperceptível e nem o que o médico fazia. Após pequena dose de calmante, afinal, o fiapo de bagaço de cana foi removido. Aliviado, perguntou ao médico que coisa grave era aquele tal de imperceptível. O médico sorriu e explicou-lhe que a palavra significava algo que não se pode perceber. – É algo insignificante, que não poderá provocar nenhum dano maior às pessoas. É o seu caso. O fiapo o incomodou, preocupou, mas não lhe causou mal maior. Só o susto.
Evaristo seguiu os caminhos da vida e fez sucesso. Empresário importante, se tornou um dos maiores construtores do país. Gerou milhares de empregos e, com fortuna, até comprou a chácara dos herdeiros do Seu Sigismundo, onde construiu um mega empreendimento imobiliário com o nome do velho atirador. Não derrubou nenhuma árvore e manteve a plantação de canas para as crianças que iriam morar no local. Determinou, em contrato, que nada poderia ser modificado no pomar. Ali seria a alegria da criançada, inclusive de seus netos. Imaginava-se entre a garotada, com seu canivete, descascando gomos de cana caiena e aconselhando cuidado para não engasgar.
Nesses dias de sobe-e-desce das bolsas de valores, Evaristo, no computador, apurava seus prejuízos, quando viu, na televisão, o presidente dizer que a crise seria imperceptível. Engasgou-se pela segunda vez na vida. Lembrou-se do episódio da infância e pensou: Acho que o presidente é, hoje, tão ingênuo quanto eu era naqueles tempos.
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