09.01.2009
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Mãe de programa

Publicado 21.03.2008
Paulo Castelo Branco-3

Um mundão de gente se acotovelando para ver o homem. Ele, apertado pelo colete obrigatório, suava tanto que manchava o sovaco do paletó. Para superar o desconforto, ele ria, abraçava os novos companheiros, acenava para alguém no meio multidão e jogava beijos. Estava assustado, mas feliz. Conseguira uma trégua para apresentar sua criança.
Como o poeta, falou das vantagens que ele tinha. No deslocamento até o local do batizado, confessou que, desde menino, sonhava, um dia, ajudar aquele povo todo, que, da mesma forma que ele, nunca tivera oportunidade de mostrar o seu valor. Ela não ficou nem um pouco abalada com a conversa. Fria, se mantinha a distância desses sentimentos calorosos que invadem a alma de algumas pessoas. Foi na juventude que, desiludida com tudo e todos, partiu para enfrentar os sujeitos que viviam de explorar o povo com sentimentalismos baratos, do tipo abraçar bebês, empurrar cadeiras de rodas e comer buchada de bode. Nunca se interessara por esses arroubos. O negócio dela era resolver problemas. Nos tempos passados, achou que era possível resolver à bala, depois, percebeu que é melhor ter uma caneta na mão do que uma metralhadora. Constatou que uma caneta, uma voz forte e segura, derrubam mais que tiro de canhão.
Ele, entusiasmado por não ouvir nenhum som de tiroteio, nem sentiu bala zunindo perto do seu ouvido, pegou o menino pela mão e o levantou, colocando-o sobre os ombros. – Este é o Pac. É ainda uma criança, mas logo estará entre vocês como se fosse o Salvador. Ele chega aqui por minhas mãos. Sou o pai dele e vou deixá-lo para cuidar de tudo. Acreditem nele e logo sentirão os benefícios que traremos para vocês. O povo delirou e aplaudiu. Ele, com o menino nos ombros, começou a se incomodar com o peso do garoto. Parecia que havia crescido repentinamente e que poderia começar a andar só.
No meio do povo, uma voz se destacou: — Aí, gente boa, será que esse menino vai mesmo fazer alguma coisa por nós ou seu discurso é mais um papo furado de campanha? Achou que o homem estava bêbado, mas, logo percebeu que um dos seus amigos estava ao lado do sujeito fazendo sinal de que ele estava desarmado. Respondeu tranqüilo: — Olha, meu irmão, você sabe que não é qualquer um que tem a coragem de vir até aqui na comunidade e, de peito aberto, com o filho nos ombros, prometer e não cumprir. Já disse e repito, nunca na história dessa comunidade uma pessoa fará tanto para melhorar as condições do povo. Agora vocês terão tudo do bom e do melhor. O Pac, meu filho, ficará aqui como garantia de que nada lhes faltará. Eu lhes prometo. O povo, novamente, aplaudiu. O interlocutor silenciou, pensando que poderia ser verdade e que, afinal, o mundo iria mudar.
— Preciso me despedir de vocês, pois vou levar minha mensagem para outras comunidades, mas, antes, quero apresentar a vocês a mãe do Pac. Surpresa, ela foi empurrada para o centro do palanque. O menino, num passe de mágica pulou para os seus ombros. Ficou danada com aquele guri melado de suor aboletado em suas costas. Virou-se para um dos companheiros e gritou: — Tira este troço de cima de mim. Ninguém a atendeu e Pac ficou ali, se mexendo e apertando seus olhos com as mãos para não cair.
O homem não percebeu o incômodo que provocou à companheira e continuou o discurso: — Qualquer pessoa que precisar de informações deve procurar a mãe do Pac que se encarregará de resolver tudo. Ela é craque nesse negócio de controlar custos, pedidos, gente chata, político murrinha, autoridades em geral, acima de tudo ela é uma mãezona; na hora do carinho, carinho; na hora do castigo, castigo. Não sobrará ninguém para botar defeito no menino Pac. Falou mal do garoto, pode saber que o troco chegará. Não tem perdão. Ela é da minha inteira confiança e, por ela, coloco a minha mão no fogo. Não só por ela, é verdade, costumo defender meus amigos até a hora da morte. Amém.
Já ia saindo, quando ela, exasperada, retirou o guri das costas e falou: — Eu não sou mãe de Pac nenhum. Se você quiser que alguém o substitua, coloque a mãe dos seus filhos. Faça como os hermanos. Saia e coloque sua mulher no lugar. Ele ficou pensativo e lembrou-se da pinga: — Boa idéia!

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