20.11.2008

Não pode acabar em pizza

Publicado 25.07.2008
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A desconfiança imperava no ambiente. Na mesa próxima à entrada, de costas para a rua, estava Gileno. Pelo espelho da parede ele podia ver quem chegava. Não desgrudava o olho. O copo de chope servia para disfarçar sua aflição.

Noutro ponto, um homem de terno escuro, óculos, barba cerrada e testa suada aparentava aguardar alguém que deveria estar muito atrasado. Uma garrafa de vinho tinto sobre a mesa, restos de pão da casa num prato e uma apreensão incontida. De instante a instante, o homem usava o telefone celular e reclamava com palavras inaudíveis. Estava visivelmente agastado.

Do lado de fora, na última mesa, quase fora da marquise, duas mulheres bebiam animadamente um desses espumantes que abrem os sorrisos e disparam as palavras como se as pessoas tivessem engolido maritacas. Falavam sem parar. Os demais clientes estavam incomodados com o barulho que as duas faziam. Elas nem percebiam.

Dois sujeitos mal-encarados pediram lugar. O garçom respondeu que só havia mesa dentro do salão. Sentaram-se à frente do homem de terno escuro. Ele não gostou dos olhares desconfiados dos dois recém-chegados.

Uma mulher bonita, elegante, cabelos cobertos com lenço azul e rosas vermelhas, vestida com roupas de grife, entrou pelo corredor e seguiu até a mesa do homem de terno escuro. Seu perfume invadiu o ambiente. O homem não se levantou ou puxou a cadeira. Ela, sem se incomodar, se sentou ao lado dele. Abriu a imensa bolsa, retirou o celular e um envelope pardo. Entregou-lhe o envelope e fez uma ligação. Em tom baixo iniciou conversação. O homem abriu o envelope e pegou algumas folhas escritas com letras grandes.

Os sujeitos mal-encarados não tiravam os olhos do casal. Ao final da ligação, a mulher pediu um chope e um pedaço do pão da casa. Não trocaram uma única palavra. Depois de ler os papéis, o homem se levantou e saiu. Os dois sujeitos pediram a conta e também saíram.

Na rua, um motociclista recebeu o envelope do homem. Os dois sujeitos entraram num carro que os aguardava e seguiram o motociclista em alta velocidade. A mulher deixou uma nota de cem reais sobre a mesa, levantou-se e foi ao toalete no andar superior. Ao descer, Gileno percebeu que ela havia retirado o lenço colorido que cobria seus cabelos, e também tirara o blazer. Agora, uma blusa de seda transparente, deixava à mostra a lingerie sensual. Estava muito diferente de quando entrou. Foi embora.

O garçom se aproximou e, com cuidado, perguntou a Gileno se ele se incomodaria em trocar de mesa. Uma família numerosa estava aguardando um local apropriado para comemorar o aniversário do patriarca. A mesa em que ele estava era a ideal para se juntar às outras e atender ao pedido. – Posso lhe oferecer dois chopes de cortesia? Gileno, contrariado, aceitou a troca sem o brinde. A filha mais velha do aniversariante agradeceu a gentileza com sorriso de propaganda e um leve toque em seu dedo marcado pela ausência da aliança de casado.

Gileno, sem poder olhar pelo espelho, ficou observando a alegria da família. O homenageado se dirigia à filha, chamando-a por Sílvia. Era uma mulher atraente. Talvez já tivesse passado dos 50 anos de idade. O burburinho educado dos amigos e parentes fez Gileno esquecer o som estridente das duas mulheres que, afinal, se retiraram.

A tensão de Gileno foi sumindo. Sentiu a mão tocar-lhe os ombros. Era Alice. Pediu-lhe desculpas. No final do plantão houve uma emergência. Por essa razão, ela chegara atrasada. A pizzaria, àquela hora, estava lotada. O cheiro dos temperos e da massa perfumava o salão. Leila não quis beber nem comer. Entregou-lhe um envelope pardo. Dentro, os papéis do divórcio, a chave do apartamento e do carro. – Até nunca mais. Estou saindo do país.

A fisionomia de Gileno se transformou. Abriu um sorriso de liberdade. Sílvia o observava. Com um prato na mão, dirigiu-se a Gileno e ofereceu-lhe: – Esta é Marguerita e a outra, calabresa. Estão deliciosas. Aceite com o nosso agradecimento pela gentileza. Ele aceitou e deu-lhe um cartão com seus telefones. – Vou adorar encontrar com você um dia desses. Não deixe que nosso encontro acabe nessas pizzas. Acabaram-se as desconfianças e os mistérios. O mundo não pára.

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Café fraco

“Tomar uma xícara de café fraco é como assistir a Britney Spears dançando: insípida, sem graça e você quer que acabe logo. Uma boa xícara de café forte é mais como assistir a Shakira: faz bem à alma..."

— Dr. Tony Fontoura

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