20.11.2008

O carpinteiro do Brasil

Publicado 03.06.2008
Paulo Castelo Branco-12

Morreu José Jefferson Carpinteiro Péres, o senador do Amazonas Jefferson Péres. Motivos ignorados fizeram com que o parlamentar retirasse do seu apelido político sua principal atividade: carpinteiro; e o seu nome de batismo, José. Jefferson Péres era muito mais José Carpinteiro do que o Jefferson Péres, que o notabilizou como grande artífice da ética na política nesses tempos de falência na atividade política.

Tal qual o José Carpinteiro, pai de Cristo, o senador da República viveu para dar exemplo de comportamento e trabalho incansável. Tal qual José, dedicou-se a dura tarefa de criar a sustentação dos pilares da jovem e frágil democracia brasileira. Usando da palavra como se fosse um formão, mostrava as falhas de seus pares e não titubeava na defesa dos interesses nacionais.

Raul Seixas, em um dos seus melhores momentos de compositor, criou o Carpinteiro do Universo , nele, Raul falava que : “ Carpinteiro do Universo inteiro eu sou”. Era assim que Jefferson Péres se posicionava na lida do Senado Federal colocando em prática o verso do poeta “ Não sei por que nasci / pra querer ajudar a querer consertar / O que não pode ser.../ Não sei pois nasci para isso, e aquilo, / E o enguiço de tanto querer.../ Humm...Estou sempre, pensando em aparar o cabelo de alguém./E sempre tentando mudar a direção do trem./ À noite a luz do meu quarto eu não quero apagar / Pra que você não tropece na escada, quando chegar./ O meu egoismo, é tão egoísta,/que o auge do meu egoismo é querer ajudar./Mas não sei por que nasci/pra querer ajudar a querer consertar/ O que não pode ser.../ Carpinteiro do universo inteiro eu sou (Ah eu sou assim!)./ No final, / Carpinteiro de mim!

No exercíco do mandato eletivo, Jefferson Péres não desviou um milímetro dos princípios que nortearam sua vida pública ou privada. Foi exemplo de combate leal a seus adversários e, até mesmo, de seus correligionários. Em suas serenas intervenções no Senado Federal, Péres utilizava seus instrumentos de carpinteiro para aparar as arestas, mas não deixava de utilizar o machado e o martelo para condenar procedimentos ilícitos de quem quer que fosse.

Durante as Comissões Parlamentares de Inquérito, sua voz fazia calar o Plenário. Com fala mansa, derrubava argumentos falaciosos e intimidava seus opositores com a força e a imponência das imensas árvores da floresta Amazônica. Nas eleições de 2006, em oposição ao governo Lula, Péres se juntou a outro baluarte da ética, o senador pedetista Cristovam Buarque, formando alternativa ao governo acusado de manter em seus quadros um grupo de executores das piores práticas políticas. Nessa época, Péres bateu forte no governo e, afinal, o grupo foi afastado do poder.

Em suas muitas lutas, Péres se dedicava com afinco à defesa da Amazônia e da capital do estado, Manaus, onde desenvolvia projeto de recuperação do centro da cidade.

Sua ausência no cenário político nacional afeta os novos políticos que nele enxergavam exemplo de como bem exercer a função pública. A correção dos procedimentos do senador demonstrava que, no exercício do mandato eletivo, é possível impor condições sem que haja necessidade de conchavos espúrios, favores pessoais ou recebimento de propinas. É com o exemplo de parlamentares como Jefferson Péres que as novas gerações se apresentarão às urnas para merecer os votos daqueles que ainda têm esperanças no futuro do Brasil.

A morte de Péres é desalento para os que desejam um país justo e democrático. A morte de Péres é como a devastação que impera em nossa maior floresta. É queimada que transforma em cinzas os sonhos de milhões de jovens. É, no entanto, a esperança verde da Amazônia, renascendo nas raízes de uma nação que não se dobra às intempéries.  

O vice-presidente da Republica, José Alencar, que representou o presidente Lula nos funerais do senador, disse: "Os brasileiros estão sedentos por honorabilidade, ética e seriedade. E isso era um marco presente na personalidade dele”. As palavras de José Alencar refletem o sentimento de José o carpinteiro da ética, que, quando acusado por opositores, pedia que fosse investigado, e reagia dizendo não ser chantageável:"Ética, para mim, não é pose". Agora, na Amazônia desprotegida, cai mais uma Sumaúma.

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