O menino Barack nasceu no Havaí, filho de um estudante queniano e de uma americana branca. Passou a infância nas praias tal como o meu bisneto deverá fazer. O Havaí, da época de Barack, não era diferente da vida da Graçandú de hoje.
No final da semana passada fui ao Rio Grande do Norte conhecer meu bisneto Rômulo, filho da minha neta Emmanuela e do Robério. Os dois quase tão jovens quanto o bebê. A mãe segue a história de suas ancestrais que, há quase cem anos, procriam na flor da idade. Não sei se isso é bom ou ruim; sei, no entanto, que mudam os rumos das suas vidas e, eventualmente, dos seus parceiros.
Em minha bagagem levei o livro “A origem dos meus sonhos”, do senador Barack Obama, com a expectativa de conseguir terminar a leitura nas salas de espera dos aeroportos, na longa viagem até a capital potiguar. Como previ, adiantei a história e, na chegada, faltavam poucas páginas para o final. Não me seria difícil conseguir alguns minutos para concluir.
De Natal até Graçandú, meditei sobre a importância do passado na vida da gente. Vi-me menino correndo nas areias escaldantes das praias cariocas, pois, o Piauí de nascimento só o conheci quando adulto. Como a memória não envelhece na velocidade do corpo, as lembranças se seguiram até o nascimento da minha filha Erica, agora avó e, aos meus olhos, quase um bebê. Eu, tal qual o Robério era quase um menino e já tinha que cuidar de uma família. Tropeços, avanços, recuos, e o longo caminho da vida surgindo a cada esquina como se não tivesse fim.
Na chegada, com o bisneto no colo, vejo que a vida não tem fim mesmo. A gente vive dos nossos antepassados e deixa nossa vida para os que chegarão. Às vezes, alguns como eu temos a oportunidade de vermos os que terão a missão de nos levar à direção da eternidade.
Mas, o que Barack tem a ver com essa minha história. A sua própria. O menino Barack nasceu no Havaí, filho de um estudante queniano e de uma americana branca. Passou a infância nas praias tal como o meu bisneto deverá fazer. O Havaí, da época de Barack, não era diferente da vida da Graçandú de hoje. Casas espaçadas, praia sem fim e um mundão de mar a prometer que lá do outro lado do oceano pode existir o tesouro dos sonhos enterrado nas alvas areias.
Barack só viu o pai uma única vez, quando tinha dez anos de idade. Seu pai concluiu o curso nos Estados Unidos e voltou para o Quênia, deixando a mulher americana e formando mais algumas famílias com esposas africanas. Costumes do lugar.
Rômulo poderá ter mais sorte e conviver com seus pais para sempre. Quem sabe? A mãe do hoje senador Obama casou-se com um indonésio cheio de mistérios e que fez brotar no menino a curiosidade sobre segredos da vida. Barack foi livre para criar, pesquisar, experimentar e viver; viver muito. Quando atingiu a idade para freqüentar o ginásio, voltou para o Havaí. Concluiu os estudos e partiu para o continente; Chicago.
Em Chicago e Nova York, conheceu a discriminação, os vícios e a solidão. Decidiu ser agente social. Teve destaque e iniciou sua vida pública. Não era feliz. Foi ao Quênia buscar suas raízes.
Visitou parentes, conviveu com as tradições, com a cultura, e com os muitos irmãos. Percorreu os caminhos de seu pai, sentindo-se como ele: negro de corpo e alma. Mas isso não importava muito. O que desejava era poder fazer algo de bom para todas e quaisquer pessoas, independentemente de raças, cores ou opiniões. Queria continuar sendo um agente social.
Ao voltar para os Estados Unidos, avançou rápido nos destinos da nação. Hoje é um dos principais políticos, e poderá ser presidente.
Na saída de Graçandú, deixei o livro com o meu neto João Alberto, de oito anos de idade, brasiliense, que vive correndo nas areias da praia como se fosse o menino Barack, no Havaí. João se assustou com o volume de quase quinhentas páginas. Disse-lhe que não ficasse preocupado. Deveria ler uma página por vez e, quando acabasse de ler, iria saber que tudo é possível nessa vida até ser bisavô ou presidente.