“O que o povo quer, esta Casa acaba querendo”. A frase do deputado Ibsen Pinheiro, no episódio que iniciou o processo político contra o ex-presidente Fernando Collor, foi fundamental para que o Senado Federal decidisse por sua cassação.
Na sessão do Senado Federal, que apreciou o pedido de cassação do mandato do presidente da Casa, senador Renan Calheiros, o mote de Ibsen não foi acolhido e o apertado resultado deixou a população estarrecida. Não que o desejo do povo fosse a cabeça de Renan. Não é isso que o povo quer. O povo deseja é que o Congresso Nacional retome a importância que tem e demonstre que não é um adendo do Poder Executivo, mas um poder forte e independente.
Os escândalos que minam os alicerces das casas legislativas se sucedem alternadamente; num ano são os “anões do orçamento”, noutro os “mensaleiros”, e, agora, a exposição das intimidades do presidente do Congresso, que, aliviado pelo julgamento que lhe garantiu o mandato, continuará sangrando com a pesada carga de acusações que tramitam no Conselho de Ética do Senado Federal.
Machado de Assis, cronista do Velho Senado, analisou a Casa com rara e atualíssima visão: “A primeira vez que assisti a uma sessão do Parlamento era bem criança. Recordo-me que, ao ver um orador oposicionista, após meia hora de um discurso acerbo, inclinar-se sobre a cadeira do Ministro e rirem ambos, senti uma espécie de desencanto. Esfreguei os olhos; não lhes podia dar crédito. Era tão diferente a noção que eu tinha dos hábitos parlamentares! A reação veio; e então compreendi que a mais bela coisa das lutas parlamentares é justamente a estima das pessoas, de envolta com as dissenções de princípios, espírito de tolerância que não conhecem ainda as povoações rústicas. A este respeito, contam estas a mesma idade que eu tinha, quando pela primeira vez pus os olhos no Parlamento”.
O sentimento infantil de Machado deve ter sido idêntico ao de um jovem que tenha assistido às cenas de violência que dominaram a instalação da sessão de julgamento de Renan Calheiros. As ações de governo a favor da absolvição do presidente do Senado, e a tropa de choque que se impôs durante toda a instrução do processo até a arrasadora decisão do Conselho de Ética, reforçaram a desilusão que se abateu sobre tudo o que o povo quer.
José Renan Vasconcelos Calheiros, nasceu em Murici, nas Alagoas, em 16 de setembro de 1955 e recebeu de presente de aniversário a manutenção do seu mandato. A política entrou em sua vida em 1970, quando foi eleito presidente do Diretório Acadêmico da área de Ciências Humanas e Social da Universidade Federal da Alagoas. Em 1978, foi eleito deputado estadual pelo MDB, partido que fazia oposição ao regime militar. Com o nascimento do PMDB, Renan foi eleito deputado federal. Apoiou Fernando Collor de Mello para a presidência da República e, logo depois, rompeu com o presidente. Esse período foi quase que apagado de sua biografia e só relembrado quando o ex-presidente se elegeu senador por Alagoas. Dizem que reataram a velha amizade, no entanto, parece que isto não aconteceu, pois Collor, logo que se aproximou o desfecho do processo de cassação do conterrâneo, se licenciou do cargo; talvez para não assistir a derrocada do antigo companheiro, o que acabou não se concretizando. Eleito senador e reeleito em 2002, com a maior votação proporcional de todo o país, quando 815.136 eleitores sufragaram seu nome, correspondente a 64% dos votos de Alagoas. Em 2005, numa surda disputa com o senador José Sarney, Renan Calheiros foi eleito presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional. Em 2007, com a ajuda de Sarney, foi reeleito.
Até aí, parecia que o destino do político alagoano seria o mesmo de seus três conterrâneos: governar o Brasil. Sonho secreto, como a sessão do dia 12. No entanto, a vida de Renan Calheiros entrou em ebulição ao mesmo tempo em que o senador conheceu o amor proibido, e se deixou levar pela ambição do poder e do dinheiro. Até então desenvolvia sua carreira nos moldes da tradicional política brasileira. Recebia ajuda nas campanhas, acolhia pleitos justos, de interesse coletivo, e percorria o país divulgando seus feitos em busca da possibilidade de, um dia, assumir a presidência da República. Com a descoberta do amor ilegítimo, o senador deixou de lado os cuidados que dedicava às coisas da vida pública, e afundou nos colchões macios e nos lençóis de seda imaculados.
Não chegou, ainda, o tempo de reconstrução da ética na política, mas o senador Renan, em sua nota oficial, parece ter ido buscar nos anais do Senado a lição de Machado, afirmando: “Não guardo mágoa, nem ressentimentos. O único sentimento que me move é o do entendimento e do diálogo. Esse processo se encerra com a reafirmação do mútuo respeito e da serenidade que sempre caracterizam a convivência política na Casa. A partir da decisão madura e soberana do Plenário do Senado, já comecei a procurar os líderes e presidentes de partidos para prosseguirmos na agenda legislativa que de fato interessa ao país, à população”. E soou o gongo do primeiro “round”.
Adicionar Comentário
Por favor seja educado(a).