O desejo nasceu ao visitar uma exposição itinerante de pinturas clássicas. Estava prestes a concluir o segundo grau e se preparando para prestar vestibular. Pensava em ser veterinário. Alguns colegas de escola formaram grupo para visitar a exposição, mas era só pretexto para matar a aula do dia seguinte. O coordenador de classes comunicou que quem faltasse deveria fazer um relato sobre o que vira, e o sentimento que as obras provocaram em seu íntimo.
Sérgio, caderno na mão, percorreu os corredores anotando o nome dos artistas e das pinturas. Todos fizeram o mesmo para não deixar furos na presença do coordenador. Recolheram prospectos com o breve currículo dos autores e pequenas reproduções das obras expostas.
Em pouco mais de uma hora, decidiram partir em busca de diversão, rumo a um riacho de águas límpidas nas proximidades da cidade. Enquanto os companheiros se deliciavam nas corredeiras, Sérgio ficou admirando a paisagem. Com curiosidade, observou a copa das árvores e os detalhes de cada arbusto. Os pássaros, notou, possuíam coloração variada e movimentos sutis; quase imperceptíveis. Foi atingido pela flecha da arte, da beleza e da harmonia.
Com espírito desprendido, Sérgio abandonou os estudos e partiu em busca da vocação: seria artista, nem que tivesse que passar fome. A primeira parada foi em Congonhas. Ficou durante dias admirando as obras do mestre Aleijadinho. Com lápis na mão, tentava reproduzir as obras. Não gostava do que conseguia fazer e rasgava as folhas.
Dinheiro curto, procurou outras atividades para se manter. Conseguiu lugar de garçom. Com o trabalho poderia pagar a pensão e continuar na cidade. Era bom de serviço e logo conquistou amigos. Dentre eles, Silvério, artista plástico conceituado disposto a ajudá-lo, ministrando aulas de desenho. Ao final de duas semanas, Silvério deu o veredicto: “— Olha Sérgio, a arte não se aprende, se aperfeiçoa. É preciso ter na alma o dom, e você não o tem. Tente outra coisa. Você é ótimo nos serviços de bar, prepare-se para ser empresário do ramo”.
A desilusão foi imensa e passou quase dois meses bebendo pelos cantos até perder o emprego e os amigos. Envergonhado, partiu para outras paragens. Foi parar em São Paulo. Garçom em bares, readquiriu o conceito e abriu seu próprio estabelecimento. Alegre, descontraído, o bar se transformou em “point” da juventude. Com o nome de Museu, a casa vivia lotada. Daí ao sucesso absoluto foi um pulo. Artistas, modelos, gente rica e bonita. As filas se multiplicavam, e as lojas vizinhas foram sendo anexadas ao projeto original. Eram tantas as salas que, do lado de fora, se imaginava que por dentro era realmente um verdadeiro museu. Reproduções de esculturas, pinturas e toda espécie de talento se faziam representar. Todo artista famoso desejava ter uma de suas obras no Museu do Sérgio.
No silêncio do quarto do grande apartamento que mandou fazer no segundo andar de uma das lojas, Sérgio renovava a esperança de ser artista. Queria ser pintor e não morreria sem sê-lo. A inveja e a cobiça tomaram conta de seu íntimo.
Em visita aos museus anotava as obras que gostaria de ver em suas paredes. Solitário, numa visita a uma exposição, apaixonou-se por um quadro famoso. Era o retrato de uma mulher. Pequeno, impressionante e avassalador. Será meu, disse baixinho.
Em casa, bolou o plano. Numa terça-feira, disfarçado de mulher, entrou na exposição. Num descuido da segurança, com um estilete, retirou o quadro da moldura e colocou sob a saia rodada. Saiu calmamente sem despertar atenção. Ao chegar, nervoso, com fita adesiva, colou o quadro na parede branca. “— É lindo”, falou em alto e bom som.
Não parou mais de furtar obras de arte. Nenhum convidado voltou a freqüentar sua residência. De vez em quando, sumia por uns dias e voltava com alguma obra. Gostava tanto delas que passou a administração dos seus negócios a um profissional. Passava horas admirando suas preciosidades.
Passados alguns anos, Sérgio recebeu a visita da polícia por denúncia de um entregador de pizzas, apaixonado por obras de arte, que diz ter visto um quadro parecido com Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, num apartamento do Brás. Espalhados pelo chão, milhares de folhas de papel com rabiscos indefinidos e insignificantes.
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