Mestre Darcy Ribeiro, na introdução do seu livro “A Fundação do Brasil”, disse: “como se constrói uma nação contra vontade e os interesses do povo que a habitava originalmente. Também, como sua edificação prossegue séculos afora, sempre contra o desejo das gentes recrutadas para participar de seu fazimento como trabalhadores. Foram milhões de índios, de negros e de brancos, ontem escravos, hoje assalariados; jamais livres para imporem seu próprio projeto de nação”. Relata, ainda, como, “apesar de tudo, estas gentes díspares, com seu desfazimento, fizeram a Nação Brasileira”.
Darcy, gozador incomparável, se vivo fosse, estaria instalado em sua rede, ali, na região que se pretende chamar Noroeste. No local em que o governo do Distrito Federal pretende utilizar para criar uma nova área de adensamento urbano vivem índios das tribos Fulni-ô, Kariri-Xocó, Guajajara, Pankararu e Tuxá, formando uma nação indígena que, segundo os especialistas, estão no local sob a proteção de Tupã há mais de 20 anos.
Não sei se os fatos são verdadeiros, mas, o Sérgio Boré, filho do inesquecível jornalista Abdias Silva, que, diziam, ter origem em tribo nordestina, criou a Casa de Tupã, lá pros lados de Porto Seguro. Se o Sérgio cuida da Casa de Tupã é sinal que os índios que vivem no Noroeste possam ser, realmente, donos da área.
Em pesquisas sobre a questão, e desejando esclarecer aos futuros compradores de imóveis na área, deparei-me com um antigo candango nascido em 19 de abril – Dia do Índio –, e hoje cacique da tribo Magaxuta em Nova Viçosa, Sul da Bahia, que me relatou uma história de deixar cair tacape: – Lá pelos idos de 1960, quando eu dirigia o DOC, departamento de obras complementares, vivia no terreno da Novacap, um índio de estatura avantajada que se intitulava Touro Sentado. Era diferente dos demais índios que apareciam por aqui. Nós o apelidamos de Juscelino, em virtude da sua altura, cor da pele e porte atlético. Os outros índios eram atarracados e pele mais clara. Juscelino não falava muito. Dizia que os homens brancos estavam, mais uma vez, tomando as terras dos verdadeiros donos: – Isto não vai ficar assim! Vocês, com esta ambição sem limites, estão invadindo tudo e darão origem a uma terra sem lei e sem respeito à natureza. Ninguém dava bola para o turrão, e a cidade se consolidou contrariando o sábio índio.
A história pode ser fantasiosa, no entanto, o candango disse-me que poderia mostrar algumas fotografias tiradas à época. Respondi-lhe que não havia necessidade, pois um fato era incontestável: nas eleições americanas passadas, na Ponte Costa e Silva, havia um índio Sioux que fazia campanha contra o Bush. Este índio, descendente do chefe que combateu o general Custer, foi visto orientando os ocupantes do Noroeste. Isto é sinal de que, numa cidade com tantos caciques, é natural que surjam índios.
Essas discussões sobre a área contínua ocupada pelos índios não deveria causar tanta celeuma, afinal, os espaços brasilienses ficaram mais livres com a retirada dos outdoors que encobriam o horizonte da Capital que, talvez, escondessem esta população abandonada pelo poder público. Só agora, com a regularização de todas as situações ilegais, é que os índios tiveram a oportunidade de avisar que eles existem.
Pode ser que a reivindicação da tribo Noroestepankararu não seja legítima. Serve, entretanto, para lembrar o desejo de JK: o crescimento de Brasília no sentido de dentro para fora. e não como hoje está sendo pretendido pelos caras-pálidas do Sul. Paulo Octávio, o vice-governador, inoculado pelo espírito do criador de Brasília, há muitos anos construiu no Gama os primeiros prédios residenciais precursores dos novos empreendimentos que valorizaram a cidade, e dando origem ao slogan: Quem ama mora no Gama.
A insistência em adensar o Plano Piloto não precisa da colaboração de ninguém. O que precisamos é do exemplo da escritora Beatrix Potter que, em meados do século 20, comprou algumas fazendas na Grã-Bretanha só para manter o ar bucólico da região, impedindo a transformação dos vales e montanhas em loteamentos urbanos.
Como escreveu Pero Vaz de Caminha, em sua carta, “Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”. Salvar do que?
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