20.11.2008

Sarabanda

Publicado 11.08.2008
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A obra de Athos Bulcão é eterna. Ficará para sempre. Sem modificações, sem arranjos e sem puxadinhos. É verdade que já desejaram dar um leve toque nas criações. Outros, mais ousados, copiaram e encheram paredes molambentas com falsas pombas. Alguns, com inveja, desprezam a arte do mestre. Ora pombas!

Athos não foi somente o artista de Brasília. Era um sujeito bem humorado e engraçado. Na juventude foi reservado, mas, na velhice, antes de ser atingido pela doença que o levou, se animava ao ver os jovens buscando desenvolver talentos em seu atelier. A todos atendia com paciência. Seus auxiliares abriam as portas de sua casa para os interessados em seu trabalho.

Era bom conversador e gostava de pintar telas que pouco foram divulgadas. Duas são especiais. São de um mesmo tema. Um jovem, numa paisagem com colorido veneziano, solta pipa diante de prédios. Uma torre com imensa lança se destaca ao fundo. Cores vivas. À frente, um jovem nu, empina belíssima pomba alaranjada. O jovem tem sobre a cabeça um gorro azul.

Corpo forte, bem delineado, o jovem está impassível. Quem são os donos dessas obras e o que as diferencia? Um dos quadros é de propriedade de um velho companheiro de trabalho, amigo de Athos que mantém a obra em sua sala de jantar. O outro é de uma auxiliar do artista, responsável pela conservação de suas obras e de sua história.

Poucos sabiam da existência dos dois trabalhos. No dia da partida do artista, ao lado de seu túmulo, amigos contavam casos sobre o pioneiro. Conversa vai, conversa vem, o quadro do homem soltando pipa, surgiu. Um dos amigos relatava a história do presente que Athos lhe fizera, de uma obra na qual um jovem nu empinava um papagaio. A auxiliar se interessou. O relato prosseguiu: – Quando o Athos me deu o quadro, o homem estava despido e mostrava seu falo, sem as características modestas da célebre escultura David de Michelangelo. Em casa, minha companheira, que era mãe de duas meninas de seu primeiro casamento, achou o quadro muito ousado e pediu a Athos que cobrisse o jovem. Foi atendida. Athos pintou uma sunga que mal escondia os equipamentos do personagem.

A auxiliar, mesmo sem conhecer o quadro pertencente ao amigo, não teve dúvida de que o artista teria se redimido, pintando outro exemplar para deixar a figura como veio ao mundo. É compreensível o desprendimento do mestre, afinal, com sua sensibilidade sempre à flor da pele, dificilmente se recusaria a atender amiga tão dileta.

Athos guardava em suas decepções a tarefa que recebeu de idealizar um dos primeiros carnavais da Capital. Sem ser um carnavalesco como Joãosinho Trinta, o artista preparou alguns apetrechos para animar os candangos. Fez uns arranjos metálicos que ficaram uma droga, como ele mesmo afirmava.

Com a decisão de se radicar na cidade que ajudou a construir, Athos se credenciou para ser eternizado como o artista de Brasília. Dos grandes arquitetos e urbanistas do projeto original, somente ele fixou suas raízes por todos os cantos. Deixa trabalhos nos palácios, nos teatros, estações do metrô e, bem guardados, muitos exemplares nas mãos de amigos.

É tempo de ser preparada exposição das obras desconhecidas do grande público. São surpreendentes. É tempo também de esclarecer que a Via Sacra, exposta na Catedral de Brasília, é de autoria de Di Cavalcanti e não de Athos, como pensam alguns, inclusive o professor Niemeyer, que confundiu a autoria quando homenageou o amigo.

Sobre o título Sarabanda, trata-se de uma conversa descontraída de Athos com companheiros que divagavam sobre o tema homossexualidade. Falava-se daqueles que buscam a companhia masculina e intitulam-se “ativos”. Athos, com sua sabedoria e sensibilidade, interrompeu a celeuma categoricamente: – Nesse negócio não tem passivo ou ativo. É tudo sarabanda. É movimento incessante. É roda-vida. Grande Athos, há muito tempo já alertava jovens craques.

Comentários

1 comentários nesta página. Adicione seu comentário abaixo.

minerex
19.09.2008 19:57 [ 1 ]

oi coleeeeeega blz???????

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Crise e oportunidade

“Já ouvi várias vezes dos gurus de plantão que 'em chinês, o ideograma para crise é composto dos símbolos de perigo e oportunidade'. Há pessoas, que repetem isso sem pensar ou sequer param para pesquisar, e ficam procurando oportunidades em crises, quando deviam é estar preparadas e prevenir-se contra as mesmas. CRISE é CRISE, e OPORTUNIDADE é OPORTUNIDADE até em chinês. Na realidade, o símbolo para 'crise' (wēi) em mandarim (língua chinesa) é composto de wēi (perigo) e (momento), e todos lá no oriente temem uma crise, do mesmo modo que por aqui no ocidente. Oportunidade em mandarim é 'jīhuì' "

— Dr.Tony Fontoura, D.D., Ph.D.

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