09.01.2009
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Som na caixa

Publicado 10.09.2008
paulo castelo branco-19

Nasceu quase dentro da quadra da Mangueira, a Estação Primeira. No colo da mãe, da ala das baianas, acostumou-se com o som do surdo, do reco-reco, do tarol e do apito marcador do ritmo.

Quando jovem, o pai trocou a moradia por um pequeno apartamento na avenida defronte ao estádio do Maracanã. Estranhou o movimento dos carros barulhentos passando sob sua janela. Nos dias de jogos; quarta-feira, sábado e domingos, não era possível dormir antes da meia-noite. A gritaria da torcida e os foguetes impediam o estudo ou a música que o agradava.

Casado, mudou-se para o Leblon. Escolheu um prédio onde havia, no térreo, uma loja de tecidos de um árabe. O homem era calmo e gentil. Naquela época, o bairro vivia o seu apogeu. Área nobre e tranqüila. Dois anos após a mudança e já com um filho, o local se transformou no “point” da cidade, sem ninguém saber a razão. A loja de tecidos passou a ser a melhor e mais animada pizzaria da cidade. Jovens chegavam em seus carros e motocicletas com os canos de descarga abertos. As vitórias e derrotas dos clubes de preferência eram motivos de comemorações até altas madrugadas. Pediu a presença da polícia, escreveu para os jornais, jogou água sobre os exagerados. Finalmente, um dia, desceu para exigir silêncio. Não foi atendido. Trocou socos com alguns dos presentes. Foi detido e levado preso para a delegacia onde vivia pedindo ajuda. Pagou fiança por ter desacatado o delegado e saiu para nunca mais voltar.

Na semana seguinte, pediu transferência para Brasília. Sabia que a cidade era tranqüila e segura. Procurou moradia num lugar com pequeno comércio, escola e templo religioso. Encontrou um belo apartamento numa das quadras do Plano Piloto. A felicidade tomou conta da sua vida. Agora, com três crianças, podia deixá-las correr pelos gramados. Da janela do apartamento via os filhos seguirem em direção à escola-classe. Se desejava pão fresco, era só esperar a fornada saindo e o aroma chegar até à janela da sala de jantar. A mercearia fornecia o necessário através de um simples telefonema. A farmácia, o sapateiro, o jornaleiro, o porteiro solícito. Vivia no paraíso, dizia aos parentes, quando, por necessidade do serviço, viajava ao Rio de Janeiro.

Os filhos adultos saíram de casa. A quadra residencial se modificou. As pequenas lojas se agruparam e nasceram os restaurantes, os bares e os verdurões. Tudo necessário à vida moderna. A música ao vivo dos violões e cavaquinhos chegaram a entusiasmá-lo. Às vezes descia para apreciar o som e tomar alguns chopes na companhia da esposa.

Em pouco tempo, novamente tudo mudou. As músicas barulhentas com seus adeptos tumultuaram a quadra. Idoso, aposentado, raspou o dinheiro da poupança e comprou uma casa no Lago Sul. Próxima ao Lago Paranoá, aproveitava os dias em caminhadas pelas margens do lago. Acompanhava os vôos das garças, dos biguás e identificava pássaros pelo canto. Em dias amenos, sentava-se debaixo de uma árvore e, por horas, jogava anzol fisgando pequenos peixes. Após a breve disputa, retirava o anzol da boca da pesca e a devolvia às águas cristalinas.

Nada mais precisava, comentava com os parentes que o procuravam para matar a saudade. Raramente viajava. Adorava a terra adotada.

Recentemente, começou a ouvir o velho batuque da infância. Escolas de samba, trios elétricos, cantores sertanejos ou líricos, e fogos de artifícios anunciando os eventos. Cães latindo e gatos miando assustados com as explosões. O silêncio morreu.

Voltou aos tempos de Baixo Leblon. Telefonou para o 190, utilizou o celular comunitário e mandou e.mail para o administrador. Reclamou com o governador, com o bispo que, por sua vez, já reclamara do mesmo barulho. Reclamou a cinco senadores seus vizinhos, ao deputado de oposição, pediu ajuda à ministra, que respondeu que iria pedir demissão ao presidente se não conseguisse uma solução para o grave problema. Por fim, redigiu abaixo-assinado e pediu a assinatura do poderoso embaixador estrangeiro que disse ter reclamado com o chanceler. Não adiantou nada. O som percorre as águas serenas do Lago Paranoá, invade as frestas de portas e estremece janelas. É bum, bum, bum, trim, trim, piuiiiiii, piuiiiiiii, tra-lá-lá, tra-lá-lá. Vive angustiado. Só não quer reagir como o morador que, num dia de cão, pegou a espingarda e disparou fogo contra o som intermitente e insuportável.Tem medo de ser algemado e conduzido à delegacia de polícia, onde registrou dezenas de boletins de ocorrência.

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